Açores, João de Melo
«Açores»
João de Melo

Nesse tempo, ainda não se sabia nada do mundo. A vida era apenas uma ideia baça, tangida à superfície áspera das coisas, e eu via-a através de uma cortina diáfana, cor de cinza como devia ser o fundo de todos os oceanos, orientando-me à flor da realidade mais pelo ouvido e pelo tacto do que pelo sempre abreviado sentido do olhar na infância. Apesar de estar ali tão perto – entranhado pelo ouvido e quase ao alcance da mão – ainda não tinha ido conhecer o mar. Nem a nossa vila do Nordeste, sede do concelho, nem a cidade de Ponta Delgada (a pouco mais de dez léguas de caminho batido a cascalho de bagacina e a ossadas pedregosas), nem as freguesias ao lado da minha que se perfilavam ao cimo da falésia, à sombra das torres das suas igrejas (cujas fachadas se postavam de frente para a gloriosa cidade de Jerusalém), e tão-pouco os verdes, enevoados montes da ilha a que então chamavam «mato do povo» – de cima dos quais se via mar e mar de um lado e do outro da terra.

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