«MONTEVIDEU, CIDADE ABERTA»
De costas para a América, Montevideu, cidade-porto, olha o Rio da Prata, quase mar, através do qual chegaram, desde meados do século XIX, as vagas
sucessivas de imigrantes que fizeram dela uma cidade polifónica, onde se combinavam idiomas, sonhos e projectos, cores e estilos de vida diversos. Depois atravessou ditaduras.Viu desfazerem-se sonhos. E em Outubro passado assistiu de novo à «refundação da alegria», como disse Eduardo Galeano na noite da vitória da Frente Amplio nas eleições de Outubro. Hoje, Montevideu vive ainda a ressaca da explosão de alegria que invadiu as principais avenidas, praças e bairros após a vitória histórica da esquerda.
Sobre essa Montevideu secreta, invisível que procura agora reencontrar o seu destino de cidade hospitaleira e aberta, afastando definitivamente a
nostalgia e o medo, aqui ficam alguns olhares de dentro, de alguns dos seus mais importantes escritores e intelectuais.
«A espera sem ansiedade»
Alicia Migdal
Num registo de melancolia e de azeda ironia,Alicia Migdal escreve uma carta sobre uma Montevideu Onettiana, atravessada por fantasmas de um passado recente que continua a marcar profundamente o destino Montevideano. E o que nos revela através de um álbum fotográfico imaginário é uma Montevideu invisível, adormecida,na longa noite da nostalgia, sem saber, ainda, que num Outubro próximo a festa regressaria às suas ruas e praças.
«Adeus ao velho bairro»
Teresa Porzecanski
Não é invulgar encontrar em qualquer café montevideano do centro ou da Cidade Velha, por
volta do meio-dia de um dia de trabalho, um grupo de amigos que conversam, comentando o último jogo de futebol da selecção uruguaia ou as vicissitudes
sempre controversas da política nacional. Abandonaram, por instantes, o seu trabalho e reúnem-se para descontrair e exercer o antigo hábito da amizade, a conversa intimista e as angústias subentendidas. Ao mesmo tempo, noutro
lugar da cidade, num bairro periférico, quando as crianças ainda não regressaram da escola, três
vizinhas puseram de lado os baldes e as vassouras e foram sentar-se ao sol para comentar a evolução
da telenovela que costumam ver a certa hora da tarde.
«A fundação de Montevideu»
Mario Delgado Aparain
Até hoje não está clara a origem do nome da cidade de Montevideu. E mais, poucos centros urbanos da América com desejo de ser cidade tiveram tantos
pré-nomes até chegar ao definitivo: Pináculo de la Tentación, Monte de la Detención, Nuestra Señora de la Candelaria, Monte de San Pedro, Santo Vidio,
Monte Seredo, Monte Vidi, Monte Veo, Montem Video,
Monte Vide Eu, Monte Ovidio, Monte VI D.EO... Tais foram, entre a viagem de Américo Vespúscio (1501) e a fundação por Mauricio de Zabala (1726), as
diferentes denominações que recebeu esta elevação visível para os navegadores que entraram, então, pelo Rio da Prata.
«Montevideu é uma cidade feita à escala humana num continente de exuberâncias»
Entrevista com Gerardo Caetano
por Mario Delgado Aparain
Eis como o conhecido historiador uruguaio Gerardo Caetano vê Montevideu. Uma cidade a contramão do resto das capitais do subcontinente americano. Uma cidade que convida ao diálogo, à ideia de proximidade e à polifonia. Numa entrevista ao escritor Mario Delgado Aparain, leva-nos a olhar a cidade desde o Cerro e a descobrir algumas chaves para recriar uma cidade hospitaleira, mais humana e afectuosa.
Leia o texto integral na Atlântica nº2
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