«Tão largo e tão íntimo»
Luiz Antônio de Assis Brasil
A questão que me pergunto é: em que medida ainda é válido falar na díade pampa-cidade; em que medida nós, do Sul da América do Sul, somos verdadeiramente cidades cercadas de pampa, uma vez que os media e os meios eletrônicos de comunicação
vêm diluindo as especificidades e instituindo padrões globalizados de pensamento. Nessa rpectiva – digamos, pós-moderna –, o pampa logo passará a ser apenas um espaço geográfico e econômico, sem constituir-se em ambiente cultural
distinto e autônomo da cidade.
Para podermos refletir sobre essa inquietante
conclusão, vale invocar uma frase de Alejo Carpentier. Dizia ele que na América Latina convivem todos os séculos. Devido à sua formação histórica, há cidades que vivem na era atual e há regiões, da mesma América, que ainda não ultrapassaram o período neolítico. Essa singularidade explicaria, ainda segundo Carpentier,
alguns traços de nossa literatura, especialmente
o prestígio do romance dito histórico: afinal, falar do passado da América Latina também é falar de seu presente, e vice-versa. É claro que estamos ante uma condição muito especial, especialíssima,
na nossa Latino-América, na qual é evidente que nem todos os bens da civilização estão disponíveis para todos, e que é uma inverdade falar em acesso geral a todas as conquistas tecnológicas e científicas. Se lembrarmos, por exemplo, do enorme contingente de analfabetos, da degradada saúde e da constrangedora pobreza e da falta de educação básica que experimenta a maioria dos habitantes do
Continente, só podemos concluir que o modo de ser rural tenderá a manter-se inalterado por um período incalculável, mas certamente longo.
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