«A turbulência da conquista»
Maria da Graça A. Mateus Ventura
«De todos os cais, partem os perseguidores de alucinações, com destino à América. Amparados por um deus navegador e conquistador, atravessam, acotovelando-se nos navios, o mar imenso. Junto a pastores e labregos que a Europa não matara de
guerra, peste ou fome, viajam capitães, mercadores, pícaros, místicos e aventureiros.
Todos procuram o milagre. No outro lado do mar, mar mágico que lava sangues e transfigura destinos, oferece-se, aberta, a grande promessa de todos os tempos.» Assim, deste modo sublime e cruel, nos introduz na turbulência da conquista da América o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Da busca do paraíso à ambição desmedida pelas riquezas terrenas, em nome de uma missão civilizadora abençoada por um Deus maior, europeus de todas as condições e crenças atravessaram, vezes sem fim, o grande oceano, levando e trazendo ilusões, ouro, prata, negros, hereges, doenças, forjando nas terras do Novo Mundo uma memória
de fogo de configuração continental.
«Crueldades e matanças perpetradas pelos conquistadores espanhóis no México»
Bartolomeu de Las Casas
O dominicano Bartolomeu de Las Casas, frade encomendeiro na Espanhola (1509-1515) e em Cuba, issionário na Nicarágua e na Guatemala (1535-1539) e bispo de Chiapas (1544-1546), envolveu-se apaixonadamente na polémica sobre o índio, defendendo a sua natureza humana e denunciando
as atrocidades cometidas pelos conquistadores espanhóis no quadro de uma guerra injusta. A sua brevísima Relación de la Destruición de las Indias, escrita no ano em que foram publicadas as
Leyes Nuevas, converteu-se numa arma política de defesa dos índios e de crítica aos espanhóis, tendo conhecido 43 edições no estrangeiro, em seis
línguas, entre 1578 e 1656, e apenas 2 em Espanha (1552, 1656). No século XIX, Las Casas foi recuperado pelos independentistas hispano-americanos que o adoptaram como «defensor da liberdade».
«Como impusemos muito boas e santas doutrinas aos
índios da Nova Espanha e lhes ensinámos a ter e a
guardar justiça e os ofícios que se usam em Castela»
Bernal Díaz del Castillo
Bernal Díaz del Castillo participou, como soldado,na conquista do México por Fernando Cortés (1519-1521). Redigiu a sua Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España em 1555, quando era regedor da cidade de Santiago de Guatemala, como resposta à história panegírica do capitão Cortés, de López de Gómara, e em defesa dos conquistadores anónimos que ele representa. Alheio às discussões metafísicas sobre a natureza do índio e a justeza da guerra que envolveram juristas e teólogos do seu tempo, escreveu uma história comprometida com a sua vivência de conquistador. À visão do índio como sujeito, partilhada pelos evangelizadores franciscanos como Toríbio de Benavente, Bernardino de Sahagún, Jerónimo de Mendieta, pelos dominicanos Diego Durán e Las Casas ou pelo jesuíta José de Acosta, Díaz del Castillo contrapõe o índio como objecto, numa história autobiográfica em cuja narrativa o índio é protagonista apenas para realçar o sucesso da missão evangelizadora e civilizadora dos espanhóis no México.
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