Cachaça, a rainha do Sul, João Azevedo Fernandes
«Cachaça, a rainha do Sul»
João Azevedo Fernandes

Terá a cachaça alguma maldição? Companheira de todas as horas, tratada com um carinho que só pode ser expresso por uma profusão de diminutivos, a bebida nacional do Brasil é também vista como uma inefável fonte de desgraças. Cachaça é moça branca, filha de um home triguero, quem puxa mucho por ela, fica pobre e sem dinhero, diz a loa popular. Chamada por alguns estrangeiros de «rum», para horror de quem conhece as diferenças entre as duas bebidas, a cachaça tem uma longa história, que se mistura com a própria origem do Brasil. Tão longa que, em seus primórdios, nem se chamava cachaça, mas jeribita, palavra de origem duvidosa, africana talvez. Cachaça era a escuma formada pelas impurezas que subiam dos tachos em que se fervia o sumo da cana. Esta operação era realizada na casa das fornalhas, que o jesuíta Antonil, escrevendo em 1711, chamou de «cárcere de fogo e fumo perpétuo», e onde trabalhavam os escravos «boubentos» ou «com corrimentos», que procuravam a cura para seus males através do indescritível suadouro, e os escravos criminosos, punidos e postos a trabalhar naquele inferno. A escuma dali resultante era dada aos animais e aos escravos, negros e índios, que a fermentavam e a bebiam com o nome de garapa ou vinho de mel. Não se sabe ao certo quando esta garapa passou a ser destilada. Beber álcool destilado era uma novidade para os próprios europeus: durante a Idade Média a acqua vitae, extraída do vinho, era usada apenas como um remédio. É durante os séculos XVI e XVII que toda uma pletora de novas bebidas – randies, bagaceiras, whiskies, grappas...– surgirá entre os europeus. Será na América, porém, que os destilados conhecerão seu paraíso, entre enormes quantidades de matéria-prima, como a cana-de-açúcar e o milho, e uma fartura de braços cativos para produzi-las e bebê-las.

Leia o texto integral na Atlântica nº2