«Província»
Poema inédito de Nuno Júdice
Assim, no centro da praça, ouvi a música branca
do coreto vazio, e um coro de pássaros afinados
pelo outono, cantando a melancolia branda da
província. Uma infância antiga corria pelo meio
do empedrado, atirada pelo vento; e as bolas de bilhar
batiam nas tabelas do jardim onde os
velhos liam o jornal, na página dos anúncios,
em busca de viagens que nunca mais fariam.
Todos os outonos são feitos de coisas banais,
colam-se a um sentimento que não tem nome,
empurram a alma para fora do asfalto, sujando-a
na lama das bermas, enchem de névoa o
horizonte dos olhos, obrigam o ser a descobrir
uma forma para o tédio, como se não houvesse
mais nada na sua existência, põem-nos pela
frente um velho mapa de nuvens desbotadas.
Sigo com o indicador o rumo dos rios. Algures,
há uma saída para esta praça; e é como se
o gesto que faço sobre o fio azul, no papel,
me levasse na sua corrente, até esse mar que
não tem portos nem barcos. Mas invento
descobertas nas colunas do coreto; abro
hemisférios nas fachadas por pintar; ouço
temporais nos telhados que vão cair.
E ao sair da praça, deixando para trás o
Outono, levo comigo os jornais que os velhos
deitaram fora, depois de ler os anúncios.
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