«Pertencer ao sul»
João Ventura
Discorre Lídia Jorge, num belíssimo ensaio que
publicamos nesta edição, sobre a noção de pertença, sobre a noção
de cisma, traição ou singularidade, o que leva, também, a uma
interpelação a nós próprios sobre o lugar de pertença da
Atlântica.Terá esta revista um lugar de pertença? E, se sim,
a que lugar pertence? Quais os territórios ambíguos que
nela atravessamos? Na sua génese partimos da ideia de
travessia oceânica, de aproximação de margens, de territórios,
de regiões e, sobretudo, de representação de um
certo imaginário ibero-americano. Diríamos, então, que a
revista pertence aos portos e praias da memória partilhada
entre as duas margens atlânticas, donde empreendemos,
depois, a viagem de intromissão, de indagação através
dos territórios sobrepostos da literatura, da história,
da política, dos usos, das identidades para descobrir no
rasto das vivências comuns iniciais a ressonância de um
passado que irrompe no musgo da história. Mas ressonância
que indicia todas as metáforas que este exercício
de curiosidade partilhada persegue, como se a Atlântica fosse
a região mais transparente onde, entre nós, se espelha a alma
ibero-americana.Vozes múltiplas ecoam na revista como
num búzio onde se escuta a maresia do Sul.Vozes de navegantes
da escrita que aqui deixam o seu rasto num conto,
num poema, num ensaio, numa crónica, num testemunho,
numa fotografia, cujo sopro continua a empurrar a
revista cada vez mais para o Sul. A eles pertence também
esta revista.
Nesse movimento em direcção ao Sul, à utopia do
Sul, para onde o promontório de Sagres parece apontar,
guardamos, ainda, a herança do nosso próprio território
de pertença pessoal, o Algarve. Porque é nesse Sul português
que se faz a Atlântica, transportando consigo o lastro
de uma terra em mudança, que muitas vezes já não reconhecemos,
talvez já sem redenção, mas onde batem,
ainda, as nossas horas mais íntimas. Por isso, embora
nesta edição continuemos a navegar rumo ao Sul, aportando
em Valparaíso sob os céus secretos do Cruzeiro do
Sul, procurando Coloane em cada maré, ou atravessando
os cem anos de solidão de um Chile que não esquece as feridas
de um passado recente, é à Lisboa azul de muitas cores que
regressamos, para logo descermos ao Algarve iluminado,
ainda, pela brancura da flor do sal. |