O diabo e as virgens, Julio Pantoja
«O diabo e as virgens»
Julio Pantoja

Com o tempo, a cultura quechua fez seu esse deus, transformando-o em Zupay, que mais não é do que a versão indígena do Diabo da fé católica, o protector dos socavones, a que os mineiros chamam «El Tío» e ao qual levam como oferenda folhas de coca e cigarros para que não se aborreça, porque, se se aborrecer, provocará tremores de terra e desabamentos.
Noutra etapa histórica de dualismo religioso, entre os anos 1700 e 1900, aproximadamente, a Pachamama andina (Mãe Terra) transformou-se na Virgem do Socavón, ampliando o sincretismo e a dinâmica da fé por intermédio desta mutação religiosa.
Hoje, o seu templo está exactamente no lugar onde os bruxos e os feiticeiros faziam os seus conciliábulos. Ali mesmo, nessa igreja, também desemboca a galeria de uma velha jazida que, transformada num museu mineiro, é presidida pelo mesmíssimo Diabo. E para esse centro sagrado se dirigem ainda os que sentem nos seus espíritos o peso do misticismo milenário.
Tudo isto foi sempre patrocinado pela Igreja Católica do colonizador espanhol que, durante séculos, procurou o modo de hegemonizar a religiosidade em todo o continente, ainda que à custa de esvanecer os seus contornos tradicionais.
Os sacerdotes construíram os seus templos nos antigos lugares sagrados, para que os indígenas entrem nesses recintos, agora católicos, para cantarem e dançarem à sua maneira. Não lhes importava. O objectivo era transculturizar os que resistiam a crer na fé trazida de outro continente.
As datas das celebrações, que a princípio tinham a ver com a estação das chuvas, foram-se ajustando a pouco e pouco aos feriados autorizados pelos padres e patrões, até ficarem definitivamente integradas no Carnaval do calendário oficial.
Actualmente, tão curiosa mistura permite que, em cada ano, mais de 40.000 peregrinos, na sua maioria disfarçados de diabos, e encabeçados pelo bispo da cidade, desfilem dançando ao longo de vários quilómetros, enquanto adoram ao mesmo tempo a Virgem católica e o Diabo.
Dentro desse paradoxo, as celebrações oscilam entre sinceras promessas à Virgem e oferendas ao Diabo e a Pachamama, entre passeios familiares e o álcool ou o sexo urgente com alguma mascarinha. Coisas de virgens e diabinhos.

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