A descoberta imperial do selvagem, Boaventura de Sousa Santos
«A descoberta imperial do selvagem»
Boaventura de Sousa santos»

Se o Oriente é, para o Ocidente, o lugar de alteridade, o selvagem é o lugar da inferioridade.O selvagem é a indiferença incapaz de se constituir em alteridade. Não é o outro porque não é sequer plenamente humano1.A sua diferença é a medida da sua inferioridade. Por isso, longe de constituir uma ameaça civilizacional, é tão-só ameaça do irracional. O seu valor é o valor da sua utilidade. Só merece a pena confrontá-lo na medida em que ele é um recurso ou a via de acesso a um recurso. A incondicionalidade dos fins – a acumulação dos metais preciosos, a expansão da fé – justifica o total pragmatismo dos meios: escravatura, genocídio, apropriação, conversão, assimilação.
Os jesuítas, despachados quase ao mesmo tempo, ao serviço de D. João III, para o Japão e para o Brasil, foram os primeiros a testemunhar a diferença entre o Oriente e o selvagem:
«Entre o Brasil e esse vasto Oriente, a disparidade era imensa. Lá, povos de requintada civilização… Aqui florestas virgens e selvagens nus. Para o aproveitamento da terra pouco se poderia contar com sua rarefeita população indígena cuja cultura não ultrapassava a idade da pedra. Era necessário povoá-la, estabelecer na terra inculta a verdadeira «colonização». Não assim no Oriente, superpovoado, onde a Índia, o Japão e, sobretudo, a China haviam deslumbrado, em plena Idade Média, os olhos e a imaginação de Marco Polo» (Viotti, 1984: 12)...

Leia o texto integral na Revista Atlãntica nº5