«Vasco Fernandes e a visão do Índio Bom»
Vítor Serrão
Generalizou-se a ideia de que a imagem
com que os europeus do século XVI
viram os índios americanos foi sempre
negativa. Na realidade, e pesem os termos
com que Pêro Vaz de Caminha se lhes refere
na sua célebre carta ao rei de Portugal, em
Abril de 1500 (mas só no século XIX dada a
conhecer à comunidade científica), o índio
cedo deixaria de ser entreolhado como essa
pessoa afável, solidária e, em consequência,
cristianizável, com que o cronista da viagem
de Pedro Álvares Cabral o descreveu.
Assim, o índio seria, por natureza, um primitivo,
isto é, um indomável bárbaro, antropófago
e poligâmico, vivendo em estado de
nudez, ou seja, um ser não integrável e sem
alma. As estampas abertas nos livros quinhentistas,
ou divulgadas por séries de gravados
um pouco por toda a Europa, multiplicaram
essa imagem do índio como selvagem
preso a ritos tribais e a práticas troglodíticas
e quase uma espécie de demónio.
O grande painel do Calvário, exposto no
Museu Grão Vasco em Viseu, vem contrariar
de maneira taxativa esta visão do índio brasileiro
e, ao integrar na simbologia do Bom
Ladrão uma figuração de índio, mostrar
que uma outra imagem, radicalmente
oposta àquela, tinha espaços de adesão e
ganhara foros de credibilidade nos meandros
do Humanismo português. Trata-se
por isso, também, de um dos aspectos que
mais valoriza essa peça, já de per se uma das
pinturas fundamentais para a compreensão,
não só do universo artístico do seu
autor, Vasco Fernandes (c. 1475-1542),
mas um dos mais significativos testemunhos
da plena adesão da cultura portuguesa
do segundo quartel do século XVI aos
valores clássicos italianos...
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