O ovo do pinguim ou crónica de um amor maior, Maria Adelina Amorim
«O ovo de pinguim ou crónica de um amor maior»
Maria Adelina Amorim

Meu filhote,
Agora que te vais iniciar na grande viagem das neves eternas, ao lugar em que só os nossos casacos pretos polvilham de negro a brancura primacial dos tempos, quero contar-te uma história, a nossa história.
Há muito, muito tempo, olhei para um grupo de pinguinas – era assim que carinhosamente tratávamos as mulheres da nossa tribo – e dei de caras, que é como quem diz, de bicos, com um pestanejar de olhos meio envergonhado, com um rosto discretamente inclinado sobre os ombros. Fiquei petrificado naquele corpo luzidio, fusiforme, naquelas penas sedosas, naquelas asas-barbatanas perfeitas. Finalmente, vi-a afastando-se com as amigas pinguinas, sob o poente coado do Pólo. Que porte, que elegância e que bom gosto: um vestido branco com um fraque negro, que lhe dava um ar de ambiguidade sedutora… Hoje todos querem copiá-la, e até vieram cá das terras quentes do Norte para tirar fotografias ao modelo. Dizem que nas capitais da moda é muito chique vestir à pinguim, uma espécie de ton sur ton, tão ao jeito da capital parisiense (sim, que por cá vemos o National Geographic, que sintonizamos directamente dos satélites com que resolveram poluir os nossos gelos, e sabemos muito bem onde ficam essas terras de selvagens, animais estranhos metidos em gaiolas de cimento e a correr de um lado para o outro dentro de máquinas que deitam muito fumo, umas bestas… a que chamam homens, parece)...

Leia o texto integral na Revista Atlântica nº5