«Pertença e contradição»
Lídia Jorge
Discorrer sobre a noção de pertença, como
sobre a noção de cisma, traição ou singularidade,
significa invocar um estado de lucidez
e exercitar uma capacidade de raciocínio demonstrativo
que, em geral, estão ausentes no
processo que transforma o sujeito num escritor
de ficção. No que me diz respeito, a simples
invocação do tema transporta-me directamente
até aos lugares ambíguos da Literatura, e a ideia
de partilha da pessoa entre si e si mesma, como
ser criador e como criatura, expressão de pertença
para a qual os gregos encontraram definitivamente
a palavra ethos, põe-me diante dos
olhos, em vez de raciocínios, a última página
da Ilíada na qual vejo o enterro de Heitor, o
corpo cremado de Heitor, os seus restos mortais
reunidos dentro duma urna de ouro, amortalhado
sob o olhar dos Aqueus, como anúncio
do enterro inevitável de Tróia. É assim, indo
beber demasiado longe, que me chega a noção
de corpo como metáfora da terra donde se vem
e para onde se vai, porém, terra, porção de
poeira nomeada com letra maiúscula, a que
cada um chama de sua pátria. Como noutras
situações se chama família, comunidade, mito
ou língua...
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